Uma delas é uma gigante do entretenimento, proprietária de parques temáticos, produtos e filmes, com 150 estatuetas do Oscar, 225 mil colaboradores e uma receita anual de quase US$ 90 bilhões.
A outra é uma empresa familiar de terceira geração, com 280 colaboradores, que embala molho de pimenta, soja, balas coloridas, uma erva chamada cavalinha, seis variedades de panetone e sete tipos de sal, todos vendidos em supermercados no Paraguai.
Em 1969, a Mickey já comercializava arroz, açúcar e bicarbonato de sódio em embalagens decoradas com o rato homônimo. Em 1978, a empresa se mudou para uma fábrica coberta por uma árvore de Natal iluminada de 62 metros. Blasco, da empresa, nega que sua família tenha se apropriado da propriedade da Disney.
“Nós não roubamos o mascote. Construímos uma marca ao longo de muitos anos. A Mickey cresceu paralelamente ao Walt Disney e se tornou parte da cultura paraguaia”, explica Blasco.
Essa conexão é evidente nas lojas de Luque, um subúrbio operário de Assunção, onde o mascote do Mickey tira fotos com fãs, como a enfermeira pediátrica Lilian Pavón, 54. “Sou fã dos produtos da Mickey”, disse, destacando a farinha de rosca e o orégano da marca.
Para Pavón, seu afeto pelo Mickey vai além dos condimentos. Quando criança, ela e suas amigas colecionavam estojos e cadernos da marca e sonhavam em visitar a Disneylândia ou o Walt Disney World, mas o custo da viagem impossibilitava esse sonho. “Fico feliz só de ver o Mickey em lugares como este”, acrescenta, enquanto passeia pelo açougue do supermercado El Cacique.
O Mickey simboliza nostalgia para os paraguaios, segundo a chef de TV e influenciadora Euge Aquino, que usa os ingredientes da marca em suas receitas caseiras. Ela reconhece que a alta gastronomia não é uma característica do Paraguai, um lugar onde se cultiva e se come o que é possível.
Os paraguaios ainda fazem chipa durante a Semana Santa, usando amido de mandioca e milho, ingredientes sagrados para o povo guarani. As receitas locais são simples, mas cheias de sabor e significado, utilizando especiarias e ervas fornecidas pela Mickey em porções práticas.
“Um momento, um sabor, um aroma é uma memória”, pondera Aquino, enquanto prepara uma “sopa paraguaya”. “E essa memória gera emoções. É a comida da sua mãe ou da sua avó.”
A popularidade da Mickey também se relaciona com a tradição de o mascote distribuir doces durante o Natal, uma prática que começou em 1983. Aquino recorda-se de como ficou emocionada ao ver o Mickey na década de 1990.
Hoje, há uma “coexistência pacífica” entre o Mickey paraguaio e o seu sósia americano, segundo Elba Rosa Britez, advogada da empresa menor. Essa harmonia é resultado de um longo processo. Em 1991, a Disney tentou reivindicar a marca, mas a queixa foi rejeitada. Em 1995, um tribunal decidiu a favor da Mickey.
A Disney recorreu ao tribunal mais alto do Paraguai, onde um juiz reconheceu que poderia haver confusão entre as duas marcas. No entanto, a Disney não contava com uma “brecha legal”. A marca Mickey estava registrada no Paraguai desde 1956, e seus descendentes a renovavam regularmente.
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Em 1998, a Suprema Corte do Paraguai decidiu que a Mickey tinha direito a ser Mickey, e Britez lembra-se da alegria desse momento.
Embora a imunidade legal da Mickey no Paraguai não se estenda à venda de seus produtos no exterior, Blasco admite que nunca tentaram. A empresa paraguaia que representou a Disney não quis comentar, e a Disney não respondeu aos pedidos de comentário.
Durante um feriado recente, o homem que veste a fantasia do Mickey estava se aquecendo em um contêiner de metal dentro da fábrica, que também serve como escritório. Blasco pediu que não revelassem sua identidade para preservar um pouco da “magia” do mascote.
“Ver os sorrisos das crianças não tem preço”, disse o mascote, ajustando a gravata borboleta antes de se dirigir ao público.
“Mickey!” gritavam. “Mickey!” O mascote posou para fotos, espalhou doces e passou pipoca para as crianças. Motoristas de ônibus e trabalhadores nas ruas acenavam entusiasmados.
Os que faziam fila para conhecer o mascote sentiam orgulho do triunfo da Mickey na batalha contra a Disney. “É legal”, comentou a dona de casa Maria del Mar Caceres, 25. “Pelo menos vencemos em alguma coisa.”

